domingo, 6 de outubro de 2013

Estás a eternamente a ser noiva.
Noiva de um viajante.
Talvez corsário, que,
Para sempre pertencerá ao mar.

E a ficar eternamente, à beira,
Do porto, da rodovia, da rodoviária.
A espreita, esperançosa,
De que um dia a viagem chegue ao fim.

Condenaste a ti mesma, no momento.
Em que teus olhos azuis,
Cruzaram de relance os meus.
Algemaste-te à ausência.
À viuvez sem morte;

E o tempo passará, e como passa,
E dia após dia estarás, como sempre,
Sozinha, etérea.
E noite após noite, só verá o negro.
Talvez luz refletida em gotas.

Estás condenada a ser rainha,
Com benesses e vícios.
Porém rainha, soberana,
De um príncipe sempre em guerra.
E que na dúvida
Cruel e penetrante,
De que volte mais um dia vivo.


De Prudêncio e Bertolo em MeuAmores.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Equipos

Deixo para trás mais uma vez as agulhas,
Os equipos, os capotes, os exames.
E concomitantemente me dispo, disponho.
Voltando a me ser-me eu.

Esqueço, por um segundo, por segundo que seja,
a face horrenda da morte, que circunda,
O lugar maldito, escuro, disperso
Claro, limpo, descontaminado.

E da Divina cidade, que contemplo à janela
Espero o retorno, outrora.
Certo que nunca mais será a mesma.
O estiolamento que trazes a levará.

Neglicencio, por imperícia medonha,
O que significas, prédio de morte.
E tenho em mim, esperança,
Que nasce da vida que trazes.

Concedo a Ti, esposa cretina,
Amor eterno, consomes-me.
Mas por este mês terei amante.
Sentirei o cheiro e deliciarei-me.
Com cada letra, frase,
E tudo que intencionalmente não foi escrito.

E no silêncio em minha mente,
No arranjar das palavras,
Me deitarei, e se, estasiado, nunca acordar.
Subirei feliz, mas enrolado, abraçado, simbiótico,
No calhamaço manuscrito que faço de travesseiro.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Bacilo

E como diagnosticar tu, bacilo,
Que brotas de páginas e páginas,
Infiltra-nos peito de lágrimas.
E consome a todos esforços.

Vida vazia e medonha que és,
Que inflama e adormece, anestesia
O mais apaixonado coração.

Nos leva a amar o escarro,
Passado a cada módulo, dia.
Interna, em nós enterra.
O desejo de dissipar sua doença.

Colore, sem tinta, e em rosa e azul
Cora a face de não possuir-te.
Tu és bacilo, encontrado em meu ser.

Não há sequer tratamento,
Para tu que és feroz.
E come por dentro, apodrece,
O que de mim, resta humilde.


De Prudêncio e Bertolo em Meu Amores.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Garimpo

E pego sem inspiração, e nada
Nada inspira, nada sinto,
Assim como anestesia.
Me fogem as palavras.
Do rearranjo que sempre me estão
Na mente, e mentem.

E me sinto como um nada,
Perdendo o que me torna eu,
Que me torna humano, perfeito,
Sublime, o que me leva ao infinito.

E é nessas horas que ajoelho,
E oro, agradeço ao Criador.
Sinto que faltarão as palavras,
Faltará inspiração.
Nem sempre as palavras serão estrelas,
Que se juntam em minha cabeça para formar o universo.

Às vezes serão difícil, como a lavra,
O garimpo em que meus antepassados
Ganharam a vida, serão difíceis,
Serão profundas, terei que cavucar,
Pedras duras para trazê-las à tona.

E como que mágica, com que não consigo explicar.
Estarão neste papel e em outros.
E cada vez que ocorrer.
Estarei pensando exatamente que agora,
Cada uma dessas palavras, que foram difíceis,
Me lembrarão de que não as consegui.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

E foi.

Perdão querida, não me retorne ao passado.
Não tenho mais a timidez, o tempo tratou de levar.
Desculpe-me, não sou mais aquele, que um dia,
Inocentemente a prometeu amar...

Pus a perna no mundo, descobri, cresci.
Desci do velha árvore, pus os pés no chão,
E me preparo para voar, ao infinito.
Um dia, talvez, volte.

Os dias da vida consomem-se, findam.
E ainda que fizesse sentido voltar, não quereria.
Estou exatamente no meu lugar, e é este.
Não estou só, tenho todo amor, tenho toda paz.

Não tente retornar o que está morto.
A morte enfim, leva ao esquecimento,
Que enfim leva-nos a renascer, e como fênix,
Que das cinzas reagrupa-se, e revive.

Não me espere, me esqueça.
Não irei mais voltar.


De Prudêncio e Bertolo em Meu Amores...

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Por outra vez

Ouço o som da música,
E esta me leva dez anos no tempo.
Há dez anos não me imaginava,
Hoje ainda não imagino.
Não sou que quis ser,
Sou o que a natureza formou.
A pedra do rio que despenca
Cheia de espículas e desce o rio,
E ao final de sua jornada se arredonda.

Sou como a grama, a erva,
que é arrancada, moída, queimada.
Mas nasce outra vez,
Que é cortada frequentemente,
Mas insiste em continuar de pé.

Diga a Deus, ao Senhor do universo,
Ainda não estou pronto,
Sou um pouco arredio,
Peço mais uma volta do mundo,
Para sofrer um pouco mais,
Para chorar uma vez mais.
E insistir teimosamente em me por de pé.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Às Estrelas.

Sou um amante das estrelas,
Me tem em suas mãos,
Completamente.
São corpos sublimes, inertes.
E ao olharmos nos provam,
Provam por nosso sentido,
Sua etérea existência,
E mesmo sem necessariamente,
Ainda existir...
Estrelas são como pessoas,
Ainda existem, mesmo,
Ao deixar a terrena existência.
Estrelas são como amores, e sonhos.
Hoje sonhei que levava, você,
Para um lugar escondido, sozinhos,
Escuro e deserto.
E ao ter todo ambiente ao meu favor,
Tive primeiro vontade, e grande,
De lhe apresentar às estrelas.


De Prudêncio e Bertolo em Meu Amores

terça-feira, 5 de março de 2013

Não vale à pena pisar.

O capim não foi plantado
nem tratado,
e cresceu. É força
tudo força
que vem da força da terra.
Mas o capim está a arder
e a força que vem da terra
com a pujança da queimada
parece desaparecer.
Mas não! Basta a primeira chuvada
para o capim reviver.



Manuel Rui em Meu amores.

Do fim

Falo do fim o fato eterno. Imutável.
Enfim, que o relato abstrai.
Me sinto mais louco, e perco
O total controle das faculdades. Ao ver-te.
Torno-me perigoso, com medo.
Procuro encontrar-te na noite,
Que ao dia, receoso me escondo.
Sou poeta do escuro, negro
A contemplo no tempo que passa, aproxima.
Ilusões que cultivo quando me deparo,
Como lunático que observa, e calcula,
E novamente se esconde e persegue, e se esconde.
Face a face devoro-te em sonhos,
E reviro suas entranhas, estranho.
Falo do fim. Do fim que programei.
O dia, a hora, o lugar, a arma, o álibi.
Do crime perfeito...



De Prudêncio e Bertolo em Meu Amores.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Família


É a realidade que me fere a face,
fere com mão cruel, impiedosa.
E o leva para longe, por mais uma vez.
E deixa Mãe chorando, à garganta.

Pareceu até, os tempos de antigamente,
Em que andávamos juntos, vivíamos juntos,
Tínhamos a chance de brigar, de discutir,
E olhar torto, e esquecer tudo isso.

É a vida que leva-me, leva minha família,
E que nos afasta por uma vez mais.
Nos distancia sempre, na estrada,
Estamos sempre, juntos e separados.

Saudoso tempo, de todos juntos,
De acordar sempre atrasado,
De brigar todos os dias.
E de poder chamar isso de família.