sexta-feira, 17 de abril de 2009

Quando eu partir

Quando eu partir, quando eu partir de novo 
  A alma e o corpo unidos,
  Num último e derradeiro esforço de criação;
  Quando eu partir...
  Como se um outro ser nascesse
  De uma crisália prestes a morrer sobre um muro estéril, 
  E sem que o milagre se abrisse 
  As janelas da vida. . .
  Então pertencer-me-ei.
  Na minha solidão, as minhas lágrimas
  Hão de ter o gosto dos horizontes sonhados na adolescência,
  E eu serei o senhor da minha própria liberdade.
  Nada ficará no lugar que eu ocupei.
  O último adeus virá daquelas mãos abertas
  Que hão de abençoar um mundo renegado 
  No silêncio de uma noite em que um navio 
  Me levará para sempre.
  Mas ali
  Hei de habitar no coração de certos que me amaram;
  Ali hei de ser eu como eles próprios me sonharam;
  Irremediavelmente...
  Para sempre.


Rui Cinatti em Meu amores...

domingo, 5 de abril de 2009

O cometa

Um cometa passava... Em luz, na penedia,
Na erva, no inseto, em tudo uma alma rebrilhava;
Entregava-se ao sol a terra, como escrava;
Ferviam sangue e seiva. E o cometa fugia...

Assolavam a terra o terremoto, a lava,
A água, o ciclone, a guerra, a fome, a epidemia;
Mas renascia o amor, o orgulho revivia,
Passavam religiões... E o cometa passava.

E fugia, riçando a ígnea cauda flava...
Fenecia uma raça; a solidão bravia
Povoava-se outra vez. E o cometa voltava...

Escoava-se o tropel das eras, dia a dia:
E tudo, desde a pedra ao homem, proclamava
A sua eternidade ! E o cometa sorria...
 


Olavo Bilac [2] em Meu Amores.

Longe de Ti

Longe de ti, se escuto, porventura,
Teu nome, que uma boca indiferente
Entre outros nomes de mulher murmura,
Sobe-me o pranto aos olhos, de repente...

Tal aquele, que, mísero, a tortura
Sofre de amargo exílio, e tristemente
A linguagem natal, maviosa e pura,
Ouve falada por estranha gente...

Porque teu nome é para mim o nome
De uma pátria distante e idolatrada,
Cuja saudade ardente me consome:

E ouvi-lo é ver a eterna primavera
E a eterna luz da terra abençoada,
Onde, entre flores, teu amor me espera.
 


Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac em Meu Amores...

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Azuis...

Levo minha vida,
cômoda, confortável
como sempre.
Tudo bem, zen...

Apenas um olhar,
arrasta tudo que construi.
Olhos azuis, tão azuis...
O mar, o céu?
Seus olhos riem deles.

Edifico tendas, cabanas,
casas, prédios...
Vem um vento azul e
os derriba, coloca-os abaixo.
Não é qualquer azul, é apenas um azul.
O vento que vem, não sei de onde...
Passa e leva tudo abaixo.

Concluo...
Olhos azuis são vento,
destroem.
Olhos azuis não são
minha prosperidade,
são minha falência...

Cheiro a terra molhada

Cheiro a terra molhada
o deserto
a noite e o choro
da criança que acaba de nascer
o ponteiro do relógio
imaginário
que não marca tempos ou memórias
a carne e a pólvora
o sangue
uma secreta raiva
desesperante de amor e solidão:
o descobrir de um mar em teus olhos.

Luisa Bagão em Meu Amores...