sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Drama Seco

O noivo desmanchou o casamento.
Que será da noiva – toma hábito
ou se consagra à renda de bilro para sempre?
Tranca-se ao jeito das viúvas trágicas.
O noivo fica noivo novamente,
de outra moça, em outra rua.
A noiva antiga que dirá
em seu quartinho negro, à hora em que...?
À hora em que
passar a pé
o noivo com
seu cortejo, braço dado a braço dado,
rumo da noiva nova,
diz-que da antiga casa de noivado
a água descerá, em punição.
Lá vai o cortejo
todo ressabiado,
terno noivo
terno novo
preto de medo,
vestido novo
branco de medo,
olho no medo
no céu da casa.
Todas as janelas secamente fechadas,
sequer uma lágrima

pinga na lapela do noivo.

Outra de CDA em Meu Amores...  Sequer uma lágrima pinga na lapela do noivo...


Além da Terra, Além do Céu

Além da Terra, além do Céu, 
no trampolim do sem-fim das estrelas, 
no rastro dos astros, 
na magnólia das nebulosas. 
Além, muito além do sistema solar, 
até onde alcançam o pensamento e o coração, 
vamos! 
vamos conjugar 
o verbo fundamental essencial, 
o verbo transcendente, acima das gramáticas 
e do medo e da moeda e da política, 
o verbo sempreamar, 
o verbo pluriamar, 

razão de ser e de viver.

Carlos Drummond de Andrade em Meu Amores

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Os meus sonhos 
o vento não pode levar
a esperança 
encontrei no teu olhar...

Os meus sonhos 
a areia não vai enterrar
pois a vida
Descobri ao te encontrar...

domingo, 21 de dezembro de 2008

Metade Pássaro

A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
Chama a luz com um assobio.
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos.
Escreve cartas ao rio,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.


Murilo Mendes em Meu Amores.

À dolorosa luz das lâmpadas elétricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Eu fúria fora e dentro de mim, 
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Fernando Pessoa in Álvaro de Campos em Meu amores

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Pés descalços

Pés descalços

  brancos, negros,

percorrem caminhos,

andam sozinhos.

Pés descalços

revelam.

Pés descalços

congelam,

a areia do tempo,

modelam,

o barro da vida.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O Momento

Quantos dias...
Quantas noites...

Ainda terei de esperar
pela beleza dos teu sorriso,
pelo calor do seu olhar.

Dias, noites,
ensolações, luares
desertos, mares.
Por todo mundo
hei de procurar-te
se preciso,
irei a Marte.
Não por impulso torpe,
apenas por amar-te.

Fico às noites,
levo comigo seu rosto,
em meu coração
ventos de agosto,
sublevam minha vontade.

Meu coração deseja voltar
à mais tenra idade,
ter feita sua vontade
e poder lhe encontrar.

Quando a verei,
certamente não o sei.
Mas com um pouco mais 
ou menos 
de desejo,
de amor,
Terei.

Espero ansiosamente, o momento.

Fiz esse poema, para uma pessoa muito especial. Espero dias e noites o momento de a encontrar...

O Romance de Tomasinho Cara Feia...

Farto de sol e de areia
Que é o mais que a terra dá,
Tomasinho Cara-Feia
vai prá pesca da baleia.
Quem sabe se tornará?

Torne ou não torne, que tem?
Vai cumprir o seu destinho.
Só nha Fortunata, a mãe,
Que é velha e não tem ninguém,
Chora pelo seu menino.

Torne ou não torne, que importa?
Vai ser igual ao avô.
Não volta a bater-me à porta;
Deixou para sempre a horta,
que a longa seca matou.

Tomasinho Cara-Feia

(outro nome, quem lho dá?),

farto de sol e de areia,

foi prá pesca da baleia.

— E nunca mais voltará!

Daniel Felipe em Meu Amores...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A mulher que passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa 
Seu dorso frio é um campo de lírios 
Tem sete cores nos seus cabelos 
Sete esperanças na boca fresca! 
Oh! como és linda, mulher que passas 
Que me sacias e suplicias 
Dentro das noites, dentro dos dias! 
 


Teus sentimentos são poesia 
Teus sofrimentos, melancolia. 
Teus pelos leves são relva boa 
Fresca e macia. 
Teus belos braços são cisnes mansos 
Longe das vozes da ventania. 
 


Meu Deus, eu quero a mulher que passa! 
 


Como te adoro, mulher que passas 
Que vens e passas, que me sacias 
Dentro das noites, dentro dos dias! 
Por que me faltas, se te procuro? 
Por que me odeias quando te juro 
Que te perdia se me encontravas 
E me concontrava se te perdias? 
 


Por que não voltas, mulher que passas? 
Por que não enches a minha vida? 
Por que não voltas, mulher querida 
Sempre perdida, nunca encontrada? 
Por que não voltas à minha vida 
Para o que sofro não ser desgraça? 
 


Meu Deus, eu quero a mulher que passa! 
Eu quero-a agora, sem mais demora 
A minha amada mulher que passa! 
 


Que fica e passa, que pacífica 
Que é tanto pura como devassa 
Que bóia leve como a cortiça 
E tem raízes como a fumaça.

 


Vinícius de Moraes em Meu Amores...

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir, 
Estrelas incertas, que as águas dormentes 
Do mar vão ferir;

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, 
Têm meiga expressão, 
Mais doce que a brisa, — mais doce que o nauta 
De noite cantando, — mais doce que a frauta 
Quebrando a solidão,

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, 
De vivo luzir, 
São meigos infantes, gentis, engraçados 
Brincando a sorrir.

São meigos infantes, brincando, saltando 
Em jogo infantil, 
Inquietos, travessos; — causando tormento, 
Com beijos nos pagam a dor de um momento, 
Com modo gentil.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, 
Assim é que são; 
Às vezes luzindo, serenos, tranquilos, 
Às vezes vulcão!

Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco, 
Tão frouxo brilhar, 
Que a mim me parece que o ar lhes falece, 
E os olhos tão meigos, que o pranto humedece 
Me fazem chorar.

Assim lindo infante, que dorme tranquilo, 
Desperta a chorar; 
E mudo e sisudo, cismando mil coisas, 
Não pensa — a pensar.

Nas almas tão puras da virgem, do infante, 
Às vezes do céu 
Cai doce harmonia duma Harpa celeste, 
Um vago desejo; e a mente se veste 
De pranto co'um véu.

Quer sejam saudades, quer sejam desejos 
Da pátria melhor; 
Eu amo seus olhos que choram em causa 
Um pranto sem dor.

Eu amo seus olhos tão negros, tão puros, 
De vivo fulgor; 
Seus olhos que exprimem tão doce harmonia, 
Que falam de amores com tanta poesia, 
Com tanto pudor.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, 
Assim é que são; 
Eu amo esses olhos que falam de amores 

Com tanta paixão.

Gonçalves Dias em Meu Amores.  Eu amo esses olhos que falam de amores, com tanta paixão.

Poesia

Como se ama o calor e a luz querida,
A harmonia, o frescor, os sons, os céus,
Silêncio, e cores, e perfume, e vida,
Os pais e a pátria e a virtude e a Deus:

Assim eu te amo, assim; mais do que podem
Dizer-to os lábios meus, — mais do que vale
Cantar a voz do trovador cansada:
O que é belo, o que é justo, santo e grande
Amo em ti. — Por tudo quanto sofro,
Por quanto já sofri, por quanto ainda
Me resta de sofrer, por tudo eu te amo.
O que espero, cobiço, almejo, ou temo
De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas
Com quanto amor eu te amo, e de que fonte
Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo!
Esta oculta paixão, que mal suspeitas,
Que não vês, não supões, nem te eu revelo,
Só pode no silêncio achar consolo,

Na dor aumento, intérprete nas lágrimas

Gonçalves Dias em Meu amores...


Triste quem ama, cego quem se fia

Nascemos para amar; a humanidade
Vai tarde ou cedo aos laços da ternura.
Tu és doce atrativo, ó formosura.
Que encanta, que seduz, que persuade:

Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão n'alma se apura,
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade:

Que se abisma nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na idéia acesas:

Amor ou fesfalece, ou pára, ou corre:
E, segundo as diversas naturezas.
Um porfia, este esquece, aquele morre.

Essa é umas das antigas... Manuel M. B. du Bocage em Meu amores.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Soneto

Mancebos! De mil louros triunfantes
Adornai o Moisés da mocidade,
O Anjo que nos guia da verdade
Pelos doces caminhos sempre ovantes.

Coroai de grinaldas verdejantes
Quem rompeu para a Pátria nova idade,
Guiando pelas leis sãs da amizade
Os moços do progresso sempre amantes.

Vê, Brasil, este filho que o teu nome
Sobre o mapa dos povos ilustrados
Descreve qual o forte de Vendôme.

Conhece que os Andradas e os Machados
,Que inda vivem nas asas do renome
Não morrem nestes céus abençoados;


Castro Alves em Meu Amores...

sábado, 13 de dezembro de 2008

Toda arte que eu faço

todo som entoado,

não é mais que uma vontade

de Te conhecer...

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O Cabelo...

Descreve as cores,
Escreve as flores.

Todas se encontram de uma só vez
e o universo se comprime ali,
tudo quanto criado então,
uma das maravilhas da criação.

A flor que se escondia
no cabelo mais bonito
em uma mistura de tanta cor,
tranformou o cabelo na própria flor.

Luana e seu cabelo,
nem aparece mais o luar
tem agora tanta beleza
que fez a lua se apagar.

Tanta cor,
tanta beleza
que nem a própria natureza

seria capaz de criar...



terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Patrícia e Maurício...

Patrícia e Maurício,
fazem do silêncio seu mensageiro
a dois corações que por inteiro
conhecem a verdade escondida.

Pedaços de mentiras
aos poucos se completaram
fazendo verdade e
escravizando a mais fiel
lealdade.

Onde procuram um ao outro
é onde está a ausência.

Patrícia e Maurício
dois corações em um só corpo
duas almas em uma só mente
duas palavras com um só sentido.

Pobres deles
Mal sabem Patrícia e Maurício.
Mal conhecem a verdade,
que só o tempo pode escrever...

O Amor da minha vida...

Que o Amor da minha vida
não seja uma linda mulher
mas haja o que houver
me leve em seu coração.
Que não pense sempre em mim
que não sinta algo por mim
apenas pense, apenas sinta.
Que o Amor da minha vida
não tenha muito dinheiro
apenas compre com beijos
meu amor e minha vida.
Que o amor da minha vida
possa ser meu esteio
minha coluna, meu veio
minha volta e minha ida.
Que seja menos meu amor
e mais a minha vida.
E enfim
que o meu amor seja minha vida
e minha vida seja meu amor...


O que uma pessoa não pensa em uma longa viagem...

Receita de acordar palavras...

Palavras são como estrelas
Facas ou flores
Elas tem raízes pétalas espinhos
São lisas ásperas leves ou densas
Para acordá-las basta um sopro
Em sua alma
E como pássaros
Vão encontrar seu caminho...


Roseane Murray em Meu Amores...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Recordo Ainda

Recordo ainda... e nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!...


Mário Quintana em Meu Amores...

A um poeta...

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha e teima, e lima , e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço: e trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua
Rica mas sóbria, como um templo grego

Não se mostre na fábrica o suplicio
Do mestre. E natural, o efeito agrade
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.


Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac em Meu amores...

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Mais um soneto.

Meu, seu, nosso,
sonho reinventado
por poeta desalmado.
Que nem descrever posso.

Dias sem fim,
noites de igual sabor,
Provas antigas de amor,
Regadas a outro sim.

Não te amo sei,
mas não me desproponho
Pelo contrário "proponho".

Quando tudo de desfaz
apenas o outro faz,
cantigas de amor em sonho.


Depois de muito tempo, outro soneto de minha autoria...

Agora (Não) Professo.

Agora não professo
nem sussurro ao vento
os segredos que reinvento,
remo na transumância dos dias.
O sonho, esse discípulo
da noite dissipada,
inspira-me à peregrinação.
Agora não tenho fronteiras,
mas quando o exílio da memória
me retém o espelho dos dias
ao sentido original das coisas
regresso, porque é necessário
ser contemporâneo do tempo.
Agora, sim, professo:
viver e abraçar os rumores do presente.

Armando Artur em Meu amores...