sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Além da Terra, Além do Céu

Além da Terra, além do Céu, 
no trampolim do sem-fim das estrelas, 
no rastro dos astros, 
na magnólia das nebulosas. 
Além, muito além do sistema solar, 
até onde alcançam o pensamento e o coração, 
vamos! 
vamos conjugar 
o verbo fundamental essencial, 
o verbo transcendente, acima das gramáticas 
e do medo e da moeda e da política, 
o verbo sempreamar, 
o verbo pluriamar, 

razão de ser e de viver.

Carlos Drummond de Andrade em Meu Amores

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Os meus sonhos 
o vento não pode levar
a esperança 
encontrei no teu olhar...

Os meus sonhos 
a areia não vai enterrar
pois a vida
Descobri ao te encontrar...

domingo, 21 de dezembro de 2008

Metade Pássaro

A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
Chama a luz com um assobio.
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos.
Escreve cartas ao rio,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.


Murilo Mendes em Meu Amores.

À dolorosa luz das lâmpadas elétricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Eu fúria fora e dentro de mim, 
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Fernando Pessoa in Álvaro de Campos em Meu amores

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Pés descalços

Pés descalços

  brancos, negros,

percorrem caminhos,

andam sozinhos.

Pés descalços

revelam.

Pés descalços

congelam,

a areia do tempo,

modelam,

o barro da vida.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O Momento

Quantos dias...
Quantas noites...

Ainda terei de esperar
pela beleza dos teu sorriso,
pelo calor do seu olhar.

Dias, noites,
ensolações, luares
desertos, mares.
Por todo mundo
hei de procurar-te
se preciso,
irei a Marte.
Não por impulso torpe,
apenas por amar-te.

Fico às noites,
levo comigo seu rosto,
em meu coração
ventos de agosto,
sublevam minha vontade.

Meu coração deseja voltar
à mais tenra idade,
ter feita sua vontade
e poder lhe encontrar.

Quando a verei,
certamente não o sei.
Mas com um pouco mais 
ou menos 
de desejo,
de amor,
Terei.

Espero ansiosamente, o momento.

Fiz esse poema, para uma pessoa muito especial. Espero dias e noites o momento de a encontrar...

O Romance de Tomasinho Cara Feia...

Farto de sol e de areia
Que é o mais que a terra dá,
Tomasinho Cara-Feia
vai prá pesca da baleia.
Quem sabe se tornará?

Torne ou não torne, que tem?
Vai cumprir o seu destinho.
Só nha Fortunata, a mãe,
Que é velha e não tem ninguém,
Chora pelo seu menino.

Torne ou não torne, que importa?
Vai ser igual ao avô.
Não volta a bater-me à porta;
Deixou para sempre a horta,
que a longa seca matou.

Tomasinho Cara-Feia

(outro nome, quem lho dá?),

farto de sol e de areia,

foi prá pesca da baleia.

— E nunca mais voltará!

Daniel Felipe em Meu Amores...