quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...



Fernando Pessoa in Álvaro de Campos em Meu Amores...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Uma vida e três meias...

Três Adultos e uma criança,
me disseram três vidas e meia.
Pensei um dia inteiro
e vi:
Quando pensamos que são,
três vidas e meia, erramos.
Na verdade são um vida
e três meias.
Crianças não têm preconceitos
amam incondicionalmente,
porque ainda não sabem o que é o amor.
Não pensam, pelo contrário sentem
aprendem sentindo o que não
conseguimos aprender pensando.
Ser como crianças,
aprender com os erros, mas tentando.
Que possamos ser
adultos no corpo
e crianças no coração.
Ouçamos o som da melodia
que sobe até os céus...
Que sai diretamente
de nossos corações aprisionados...

O homem pássaro

O número sagrado desta casa,
a que dentre as ruínas se refez,
tu o tens permanente, sem talvez,
em cada coisa agora funda e rasa.

Projetam-te num vôo duas asas...
Um fogo se levanta da nudez
deste homem-pássaro, que tudo fez
incendiar, que tudo fez em brasas!

Num vasto céu de sombras e de luzes,
eis que uma estrela surge deste anelo.
Em teu corpo morada, em teu castelo,

às cinzas da hora morta a que reduzes,
no limiar da forma, a flor e a pedra,
o número-raiz perdura - e medra.


Sérgio Valladares em Meu Amores...

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Ah, quanta vez, na hora suave
Em que me esqueço,
Vejo passar um vôo de ave
E me entristeço!

Por que é ligeiro, leve, certo
No ar de amavio?
Por que vai sob o céu aberto
Sem um desvio?

Por que ter asas simboliza
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?
Sei que me invade

Um horror de me ter que cobre
Como uma cheia
Meu coração, e entorna sobre
Minh'alma alheia

Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder
Ter não sei quê do vôo suave
Dentro em meu ser.



Fernando Pessoa em Meu Amores...
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.


Fernando Pessoa, in Ricardo Reis.

Ai! Se sêsse!

Ai! Se sêsse! Cordel de Zé da Luz...


Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Meu Tempo...

Sinto que a hora chega,
e que meu tempo se acaba
minha alma negra
do meu espírito se separa.

Fiz pouco, trabalhei pouco
estudei pouco, vivi pouco.
Mas a vida que em mim se finda
foi inteira para você.

Nos últimos momentos
tudo que não tinha valor
passa a ter
e tudo que eu valorizava
a perder
todo o esforço que fiz
para as conseguir...

Tive tempo, amei, sorri
chorei...
Chorei...
Fiz menos do que gostaria,
mas exatamente o que deveria ter feito,
para o propósito maior de nossas vidas.

Não prezei o sucesso,
não vivi de aparências
não fui aparentemente feliz.

Não me casei, não tive filhos,
não escrevi um livro.
Apenas fui eu mesmo e tentei,
fazer a coisa certa,
a viver para a eternidade,
eternidade que agora me chama.

Deus a ti entrego o meu espírito
a minha alma,
o meu corpo,
corpo que a terra há de expiar
espírito de vida que voltará a Ti,
Alma que terá seu julgamento.

Não fui o melhor,
não cheguei nem perto disso,
mas cumpri o meu propósito
e vou a Ti,
esperando dos que aqui ficam,
que álguem chore por mim.


Emanuel Miranda, 01/10/2008.